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Turismo

Serra da Barriga agora é Patrimônio Cultural do Mercosul


Artesã Irinéia Nunes



Ignobá cantou o hino nacional brasileiro antes da solenidade






Símbolo de resistência e de uma revolução ocorrida em Alagoas. Um lugar sagrado, principalmente para os povos de matriz africana. A Serra da Barriga, localizada na cidade de União dos Palmares, Zona da Mata do Estado, recebe neste sábado (11) mais um título: a certificação de Patrimônio Cultural do Mercosul. Oito países da América do Sul entregam a honraria em uma solenidade que conta com representantes do Estado e de movimentos sociais.

Considerar essa extensão de 27,97 km² como um solo de luta é rememorar, por um lado, Dandara, Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba, Acotirene, Aqualtune, e todas as guerreiras e guerreiros que lutaram pela liberdade da população africana e afrodescendente ao longo dos séculos XVII a XVIII. Por outro lado, trata-se também de respeitar a história recente do movimento negro que, há mais de quatro décadas, tem articulado, por entre tantas outras lutas, a reivindicação da Serra da Barriga como um território de representatividade do movimento.

Nascido na comunidade remanescente Cabeça-de-Porco, em São Luis do Quitunde, o professor Zezito de Araújo foi um dos militantes que atuou em todo o processo de tombamento da Serra da Barriga, uma das ações precursoras, na década de 1980.

"As conquistas que temos hoje foram construídas nas décadas de 1970 e 1980, quando o movimento social negro se reorganizou e se mobilizou, resultando na recriação de um movimento negro político", atentou o militante e professor. "Fomos nós, negros e negras de Alagoas que estávamos a frente disso, sem falar nos embates que tivemos para desapropriar e tombar a Serra da Barriga. Houve conflitos permanentes com latifundiários da região", explica.

Professor Zezito enumerou, ainda, uma série de outras conquistas, como a inclusão de Zumbi dos Palmares no tomo dos heróis nacionais e a criação de rituais para celebrar Zumbi dos Palmares na Serra. "O que cobramos até hoje? Zumbi passou a ser o herói nacional. O Estado tem obrigação de fazer rituais de celebração deste herói nacional. Que não é herói só da população negra, mas de todo o Brasil", relata.

Segundo o militante, há falta de investimento público para impulsionar a representatividade e simbologia de Zumbi dos Palmares. "Quando digo que o Estado tem que fazer uma grande homenagem a Ganga, Zumbi, Aqualtune, Dandara e tantos outros, é porque nós fomos os pioneiros no grito da liberdade no mundo contemporâneo. E o Estado não está nem aí".

TÍTULO DEVE IMPULSIONAR O TURISMO

Conquista de visibilidade para os movimentos negros, a elevação da Serra da Barriga como patrimônio cultural representa também um incentivo ao desenvolvimento turístico, segundo o presidente da Fundação Cultural Palmares, Erivaldo Oliveira. 

"As pessoas vão aos Estados Unidos e visitam o museu Martin Luther King. Por que não vêm a Alagoas e colocam no roteiro a Serra da Barriga?", questiona. "Vamos transformar a Serra da Barriga em um local de grandes visitações públicas, em parceria com os Ministérios do Turismo, da Educação, para que possamos levar turistas para a Serra", anuncia.

Para fomentar o turismo, outros segmentos também serão levados em consideração. "Para isso temos que ter guias turísticos, apresentações culturais", cita. "Tem que ter religiões de matriz africana lá em cima, rodas de capoeira. Nós temos que ter todas as manifestações da cultura afro-brasileira para apresentarmos a Serra com toda a sua grandeza e toda a sua beleza".

Residente mais antigo do lugar, o aposentado Cícero João da Silva chegou ao Quilombo há mais de 50 anos. "Eu vim aqui para trabalhar. Quando cheguei só tinha mato e tinha a esperança de ter mais prosperidade, já que a terra era muito mais vasta. Saí de um lugar com pouco espaço para vir para cá. Anos depois, o governo tomou conta e nós ficamos sem poder plantar mais nada", conta o morador ao fazer referência a decisão do Estado em tombar a Serra da Barriga e ao recordar o período onde cultivava mandioca, milho, feijão, inhame, laranja, e muitos outros alimentos nas terras de Zumbi.

"Depois que fomos proibidos de trabalhar na terra muita gente foi embora daqui. Alguns, até têm ainda a morada, mas passam muito tempo longe, inclusive fora do estado buscando sempre um meio de sobreviver. Aí eles mandam um dinheirinho para a família, que só tem basicamente a renda que vem do Bolsa Família", contou Cícero João ao dizer que atualmente somente 16 famílias moram na Serra.

A expectativa de acordar com a informação de que precisa deixar o Quilombo aflige o idoso. "Se isso realmente acontecer eu vou chorar, porque vivi a maior parte dos meus anos aqui. Eu gosto desse lugar. É muito sossegado, um verdadeiro paraíso. A única vez que aqui fica complicado é, justamente, no dia 20 de novembro porque vem muita gente para cá e as pessoas invadem tudo. Quando eu olho já estão no meio do terreiro da minha casa, tirando as laranjas do pé. Não fosse isso, nunca teríamos nada para dizer daqui. Eu não sei porque a gente precisa sair. Um governo tão rico. A gente não incomoda nada, mas, mesmo assim, querem tirar os moradores", critica o senhor de 74 anos

CULTURA E SOBREVIVÊNCIA DOS REMANESCENTES QUILOMBOLAS

A poucos quilômetros da Serra da Barriga está a comunidade do Muquém. Remanescentes de quilombolas, a população é representada, entre outros, por artistas que produzem peças feitas com barro e argila, reconhecidas internacionalmente, inclusive já foram expostas em cidades como Milão, na Itália.

No ano de 2010, após a enchente que devastou diversas comunidades em Alagoas, os moradores do Muquém foram deslocados das margens do Rio Mundaú para mais próximo da rodovia. No local foi construído um residencial que leva o mesmo nome e tem cerca de 120 casas, escola e posto de saúde.

Patrimônio vivo do estado de Alagoas, dona Irinéia Rosa Nunes da Silva, de 70 anos, é figura ilustre da comunidade. Com simplicidade, a mais antiga artesã do Muquém usa uma mistura de barro e água para dar forma a suas peças, que antes de serem finalizadas são queimadas durante seis horas em um forno de barro, para adquirirem mais resistência.

Para a artesã, a arte foi um agente transformador em sua vida. "Eu sinto orgulho de trabalhar com a arte. Eu não tive oportunidade de estudar quando era jovem e depois de ser reconhecida como artesã e me tornar Patrimônio Vivo tive a chance de conhecer muita coisa e viver muitas histórias", conta a mestra, que, frequentemente, é convidada para realizar oficinas de produção de peças, além de exposições.

A lição de produzir as peças com o barro, ao que parece, está sendo muito bem entendida. "Se o Muquém não tivesse a arte da argila as pessoas não viriam para cá. Eu e minha tia vamos dar continuidade a todo o trabalho feito pela minha vó. Eu quero prosseguir com a cultura iniciada por ela, mesmo sofrendo preconceito", afirma a neta de dona Irineia, a adolescente, Bianca Nunes.

"Muita gente não tem conhecimento e xinga as peças dizendo que é boneco de macumba, mas isso é pura ignorância. Eu tenho muito orgulho da cultura negra e vou seguir com o objetivo de perpetuar essa vivência", contou a estudante ao relatar a experiência de criar bonecos e objetos que representam a cultura norte-americana através das peças de cerâmica, para uma festa de Hallowenn na escola da comunidade.

"Quem tem a arte como eu tenho a minha sobrevive melhor, mas quem não tem precisa ir trabalhar fora. Os homens vão para estados como Espírito Santo, Bahia e Goiás. De lá, eles mandam um trocado para as mulheres conseguirem sobreviver", conta a artesã Irineia.

REMANESCENTES QUILOMBOLAS VIVEM NA LINHA DA POBREZA

Esta realidade é confirmada pelo Estudo Sobre as Comunidades Quilombolas de Alagoas, do professor e economista Cícero Péricles, que aponta cerca de 68 comunidades remanescentes certificadas e distribuídas em 35 municípios.

Os dados mostram ainda que no universo de quilombolas alagoanos cadastrados no CadÚnico, verifica-se que 75% destes possuem renda familiar per capita de até R$ 77, ou seja, são considerados extremamente pobres. Outro dado revela ainda que 86,9% desta população está dentro da linha de pobreza e pobreza extrema.

Vinculando a cultura ao contexto social das comunidades, o presidente da Fundação Palmares reconhece que a sustentabilidade é indispensável na preservação da cultura, e a estruturação econômica também faz parte dos objetivos da autarquia. "Não posso me prender apenas à cultura. Tem 11 ministérios no Governo Federal com recorte racial. Fizemos GT para discutir política para as comunidades quilombolas, porque ninguém faz cultura passando fome", comenta.

Entre as estratégias apontadas na busca da mobilidade social da população afro-brasileira e das comunidades quilombolas está o desenvolvimento de uma feira de artesanato permanente. "Vamos dar sustentabilidade para que possam conseguir viver da cultura local, e da cultura que turistas vão encontrar", relata.

Entretanto, as comunidades quilombolas são extremamente diversificadas e suas especificidades econômicas e culturais também são evidenciadas no momento de buscar as políticas públicas de sustentação. No caso do Muquém, por exemplo, são poucas as pessoas que, como dona Irinéia, vivem e sobrevivem do artesanato.

A cada deslocamento promovido pelo Estado, menores são as extensões de terra dos povos quilombolas, e a comunidade que tradicionalmente vivia da agricultura de subsistência termina por não encontrar opção de sustentação que não a evasão. O representante da Fundação reconhece o problema e reforça a necessidade de titulação das terras quilombolas.

"Não consigo entender o homem e a mulher sem o seu território. Para a gente existir, a gente tem que ter território. Se eu não tenho terra, vou embora daquele local, porque o primeiro contato do homem com a natureza é no trabalho com a terra. Então a gente precisa, em parceria com o Incra, pressionar cada vez mais o governo pra fazer a titulação dessas terras, com uma medida maior de titulação. Porque não adianta colocar a comunidade que se reconhece Quilombola, e deixar isolada sem política, sem terra. Eles vão sair mesmo para Maceió, para Zona da Mata cortar cana, ou até para outros estados".

 Por Madysson Weslley e Wanessa Oliveira - Portal gazetaweb.com - fotos de José Feitosa

Publicado em 11/11/2017
2 comentários
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  1. User

    Antônia escreveu em 12/11/2017 07:41:35:

    União tem que mostrar nossa Cultura, pena que o kil não sabe valorizar a terra oque ele quer é roubar vamos aguardar o próximo roubo dele

  2. User

    Osvaldo Fogaça escreveu em 11/11/2017 22:58:25:

    Excelente, parabéns para todos palmarinos, viva cultura afro, axé.

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