Médico reafirma despejo de instituto cardiológico pela Santa Casa de Maceió


Alvo de tentativas de desmentido da denúncia sobre o despejo do Instituto de Doenças do Coração (IDC) da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, o cardiologista José Wanderley Neto, publicou carta aberta, nesta quarta-feira (20), em que agradece pelas manifestações de apoio à causa da cardiologia alagoana e à sua iniciativa de pedir socorro pelos doentes cardíacos pobres de Alagoas.

Na mensagem, o premiado cirurgião cardíaco e ex-vice-governador de Alagoas esclarece pontos de seu protesto que já haviam chegado ao conhecimento da gestão da Santa Casa de Maceió desde suas primeiras reivindicações em 2014. E ressalta que nunca anunciou que estava deixando de operar na Santa Casa, mas que teve a quantidade de cirurgias reduzidas para uma ou duas semanais, por decisão da entidade filantrópica.

Tal esclarecimento sobre sua permanência operando na entidade se deve a uma das interpretações equivocadas levadas a público pela Santa Casa. A entidade chEgou a levar jornalistas até seu centro cirúrgico, com a promessa de fotografar José Wanderley Neto operando, como se o denunciante tivesse anunciado seu desligamento, ao denunciar o despejo do IDC.

Na carta, José Wanderley Neto reafirma a denúncia divulgada em primeira mão pelo Diário do Poderde que “a atual gestão da Santa casa fechou o IDC, tomou os espaços de atuação clínica, limitou a atuação na prática a um dia por semana e ainda incentivou os cirurgiões a formarem ‘equipes’, agora são quatro”.

No texto, o cardiologista demonstra a denúncia com a informação de que uma nova marca para substituir o IDC foi criada: inicialmente, Nova Cardiologia; depois, Santa Casa Cardiovascular.

Outro esclarecimento feito diz respeito à tentativa de negar que o IDC atuou em mais de um milhão de atendimentos, 20 mil cirurgias e 44 transplantes de coração em seus 40 anos na Santa Casa de Maceió, 90% desses serviços prestados a usuários pobres do Sistema Único de Saúde (SUS).

Neste caso, o desmentido oficial da gestão conduzida pelo provedor Humberto Gomes de Mello, negou ter havido atendimentos formalmente registrados pelo SUS em nome do IDC. E confundiu o instituto, um bem imaterial, com o setor de cardiologia, juridicamente constituído.

Wanderley ainda se refere a outra carta enviada à Santa Casa em 14 de maio de 2018, que está publicada abaixo, logo após seus esclarecimentos.

Leia os esclarecimentos publicados em carta divulgada hoje por José Wanderley Neto:

Prezados Amigos,

De antemão, agradeço a cada um as palavras e gestos de carinho e apoio espontâneos que venho recebendo nesse momento.

Gostaria de esclarecer e reafirmar alguns pontos escritos na minha carta, para que não ocorram interpretações equivocadas ou mesmo desvirtuado o sentido e sentimentos ali impressos:

1- Continuo Médico Cirurgião da Santa Casa, porém com limitações de atuação, onde na verdade consigo, por uma logística/administrativa, operar um(01) no máximo dois(02) pacientes por semana, isso quando não recebo a informação de que a cirurgia programada não poderá ocorrer.

Ainda permaneço, não por vontade da gestão, mas por compromisso ao juramento médico que fiz a mais de 40 anos, amor ao que faço e respeito aos pacientes e seus familiares que me procuram, os quais busco ajudar com as limitações que me foram impostas;

2- Como exposto na Carta, estamos apontando o fechamento do Instituto de Doenças do Coração (IDC) e não o fechamento da Cardiologia, que agora possui um novo nome e novas equipes;

3- O instituto de doenças do coração é um bem imaterial, uma concepção que une Assistência ao paciente, Educação e Formação Profissional, Ciência/Pesquisa Científica, nem sequer é uma pessoa jurídica.



Equipe de Jose Wanderley Neto na Santa Casa de Maceió (Foto: Divulgação)

Como um grêmio literário e científico, serve para educação continuada, formação de cardiologistas e cirurgiões, iniciação científica para estudantes de medicina.

Com essa marca foram produzidos centenas de trabalhos científicos apresentados em congressos nacionais e internacionais que colocaram Alagoas no mapa científico brasileiro;

4- A equipe do IDC, tinha por missão o atendimento a todo e qualquer paciente seja ele privado (planos de saúde) ou usuários do SUS, e sempre tive como filosofia de vida atender a todos sem nenhuma distinção social, mas um olhar atencioso aos problemas sociais dos pacientes mais necessitados;

5- A atual gestão da Santa casa fechou o IDC, tomou os espaços de atuação clínica, limitou nossa atuação na prática a um dia por semana e ainda incentivou os cirurgiões a formarem “equipes”, agora são quatro. E criou uma nova marca. Inicialmente “nova cardiologia” e depois Santa Casa Cardiovascular.

Os demais pontos e problemas estruturais estão descritos nas cartas e anexos, enviados desde 2014.

Um fraterno e caloroso abraço de agradecimento à causa.

Dr. José Wanderley Neto

Agora, veja a carta enviada pelo médico à Santa Casa, em maio, com anexos narrando alertas anteriores:

Maceió, 14 de Maio de 2018.

           Meu nome é José Wanderley Neto, alagoano de Cacimbinhas, médico, cirurgião cardiovascular com mais de 40 anos de história profissional e dedicação à cardiologia e à honrosa instituição filantrópica, Santa Casa de Misericórdia de Maceió.

Durante esse período não medimos esforços para salvar vidas e acalentar os corações dos que mais necessitam de assistência, o alagoano pobre e dependente do SUS. São pessoas que precisam da essência filantrópica do hospital e abnegação de sua equipe médica.

Estivemos sempre, eu e toda a minha equipe de médicos e demais profissionais de saúde, superando os desafios e obtendo conquistas para a cardiologia alagoana, e, agregando ensino, pesquisa e assistência, operamos mais de 20.000 doentes e treinamos mais de 80 cardiologistas, colocando Alagoas no mapa cientifico do Brasil ao realizar contribuições relevantes e originais que serviram de modelo para o país, a exemplo o programa de transplante de coração, iniciado há 25 anos, com histórias de vida emocionantes.

Mas, revestido com a falácia FINANCEIRA, o espírito original e norteador das ações clínicas e institucionais da Santa Casa, que é a FILANTROPIA, se perdeu com o comando ditatorial de uma gestão predatória, que busca eliminar os que não concordam com o afastamento da instituição do seu motivo SER, defnido desde quando fundada há mais de 150 anos, que é cuidar dos mais desfavorecidos e prestar um serviço de excelência e humanizado para toda a população alagoana.

Em 2014, a atual direção da Santa Casa de Misericórdia de Maceió decidiu fechar o centro cirúrgico da cardiologia, iniciando o desmonte de todo o serviço. Na ocasião, comunicamos à Mesa Administrativa, por escrito, para que ficasse marcada a posição da equipe alinhada com as melhores práticas de cuidados em cardiologia (anexo I).

O desmonte, injustificável, continuou com várias medidas tomadas pela atual direção e causou a divisão do corpo clínico e separamento dos setores, promovendo discórdia e fazendo desaparecer, gradativamente, a importante contribuição dos cardiologistas fundadores do serviço de cardiologia e a referência na especialidade.

O Dr. Cid Célio Cavalcante é uma das vítimas desse desmonte. Ele abandonou constrangido o serviço de hemodinâmica ao constatar que dois médicos tinham entrado no serviço sem a sua anuência e sem nenhuma necessidade técnica ou justificativa.

Os médicos fundadores do serviço de cardiologia que permanecem não são chamados para serem ouvidos pela atual direção e, por isso, lamentavelmente, não têm nenhuma participação nas decisões, sejam administrativas ou técnicas.

Leitos foram suprimidos, decisões foram tomadas a esmo, sem consulta ao Conselho Médico, que continua fechado, sendo introduzida mais uma “equipe de cirurgia” sem necessidade ou fundamento. De modo que, atualmente, não temos mais uma equipe de cirurgia cardíaca na Santa Casa, mas cirurgiões que operam doentes quando há vagas.

A ação de desmonte continuou com o fechamento do Instituto de Doenças do Coração (IDC), onde dispúnhamos de sala administrativa, sala de reuniões e biblioteca que proporcionaram um vitorioso programa de treinamento em cirurgia cardiovascular, essencial para que tivéssemos a continuidade e a ampliação do atendimento cirúrgico no estado.

Diante dessa situação incompreensível, do desmonte injusto e irracional, comunico que não sou mais o coordenador da cardiologia e da cirurgia cardiovascular da Santa Casa.

Entretanto, esclareço que o Instituto de Doenças do Coração (agora extinto pela direção) continuará existindo, porque é uma ideia bem-sucedida, em defesa do ensino, da pesquisa e da assistência, e não depende de estrutura física ou de bens materiais.

Portanto, sendo uma ideia, permanecerá vivo e atuante, sendo substituído apenas por outra ideia melhor. E continuará existindo graças aos inúmeros cardiologistas que foram formados e atuam em Alagoas e na Santa Casa.

A equipe da cardiologia e cirurgia cardiovascular, conforme histórico e cartas envidas a Mesa Administrativa da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, nunca se recusou a contribuir com a gestão e na melhoria de fluxos e processos, visando sempre o bem estar do paciente e sustentabilidade financeira para manutenção dos programas e ações assistenciais.

Lembro que em janeiro de 2015, parte expressiva do corpo clinico solicitou reunião com a Mesa Diretora da Santa Casa, que só foi agendada em junho do mesmo ano, e manifestou por escrito (anexo II) o inconformismo geral, sem, entretanto, qualquer mudança visível. Coordenado pelo Prof. Carlos Macias, foi sugerido um plano de estruturação da Cardiologia que foi solenemente ignorado pela direção.

Em que pese as circunstâncias adversas, continuarei como cirurgião na Santa Casa e cuidarei de quem me procurar, embora lamente, profundamente, que existam grandes limitações impostas pelo modelo adotado pela direção para a realização do exercício pleno da cirurgia cardiovascular.

Compreendo, plenamente, que a Santa Casa é um hospital comunitário e que as pessoas que o administram passam.

Entretanto, também estenderei meu trabalho a outras instituições e lutarei para ampliar os leitos de cardiologia e melhorar o atendimento a todos os alagoanos, principalmente aos que dependem dos SUS, continuando firme na missão que iniciei há 40 anos quando retornei à minha terra para implantar a cirurgia cardíaca.

Agradeço a confiança dos alagoanos, que ao longo dessas décadas escolheram e confiaram em nossa equipe e nosso compromisso de atender a todos com correção, humanismo e solidariedade.

Que Deus abençoe a todos.

Cordialmente,

Dr. José Wanderley Neto

 

ANEXO I

Maceió, 19 de dezembro de 2014

À Mesa Administrativa da Santa Casa de Misericórdia de Maceió

Gostaria de expressar, por escrito, o que inúmeras vezes fiz verbalmente , sem ser levado em conta, sobre os rumos da cardiologia e da cirurgia cardiovascular da Santa Casa de Misericórdia de Maceió.

É fato público o papel que teve a implantação do serviço de cardiologia e cirurgia cardiovascular na estruturação deste hospital e na Medicina de Alagoas. Podemos afirmar que colocou Alagoas no mapa cientifico do Brasil. Daqui saíram contribuições relevantes e originais que serviram de modelo para o país inteiro.

O programa de Transplante de Coração, iniciado há 25 anos, foi referencia  para todo o pais. O serviço formou mais de 70 médicos cardiologistas e cirurgiões em 35 anos de atividade. O impacto provocado pela estratégia de gerenciamento com a participação ativa dos médicos, sem nenhum tipo de remuneração, serviu de inspiração para os outros serviços do hospital e com essa sinergia em 10 anos a Santa Casa transformou-se no melhor hospital do Estado.

A cardiologia sempre foi o fio condutor dessas transformações. Implantamos a primeira UTI do Estado e com a evolução cedemos essa UTI para os clínicos e conseguimos com muito sacrifício dos médicos e apoio irrestrito da direção de então, aproximar a UTI do Centro Cirúrgico Cardíaco, criando a UTI cardiológica, condição ideal para se trabalhar com doentes graves que correm risco em deslocamentos e precisam de constantes reintervenções em ambientes diferentes. 

Mas não conseguimos o que seria ideal e mais seguro para os pacientes, que seria aproximar centro cirúrgico, UTI e Hemodinâmica, facilitando o trabalho da equipe de cuidadadores e melhorando a segurança dos pacientes.

É fato também que há muito se tem tentado, sem sucesso, de forma sorrateira e às vezes ostensiva, desmantelar um dos serviços mais destacados da instituição. Mudanças são implementadas sem consulta a quem de direito e se eventualmente ocorre, não têm nenhuma consequência.

Conversas de corredor são plantadas com o objetivo claro de desmerecer o trabalho dedicado de todos. O serviço encontra-se operando com grande dificuldade e sem nenhuma interlocução com a direção.

Equipamentos sucateados, UTI com problemas crônicos de equipamentos e principalmente de pessoal, comprometem os resultados e levam a equipe a um esforço enorme para manter o atendimento regular.

Novos projetos que deveriam ser implantados visando acompanhar o desenvolvimento científico e atender à população, não encontram espaço para serem implementados e outros, que obtém bons resultados e tem grande importância social, são desativados. O maior exemplo é o programa de Cirurgia Cardíaca Pediátrica, que foi descontinuado, gerando grande prejuízo social.

Com o discurso de melhorar a estrutura, a direção nos impôs a transferência do centro cirúrgico da cardiologia para o centro cirúrgico Geral, num retrocesso sem precedentes, nos roubando uma conquista importante (não só da equipe, mas da segurança dos doentes) , de ter um teatro de operações contiguo à UTI. O movimento lógico seria melhorar o centro cirúrgico cardiológico, ampliar a UTI cardiológica e pensar em aproximar a hemodinâmica.

Essa idéia sem sentido vem sendo tentada de forma mais intensa nos últimos 6 anos, sem nenhuma sustentação técnica. Mais recentemente  a arrogância tem se exibido de forma mais ostensiva na forma de que é uma determinação  “superior”, “ou vai por bem ou vai na marra”, se sobrepondo ao interesse maior que, é o paciente, e desrespeitando o saber acumulado de pessoas que há exatos 40 anos se dedicam integralmente à cardiologia e à Santa Casa.

Gostaria de apelar à mesa administrativa para que pudesse abrir espaço aos médicos e outros profissionais para que, de forma serena, possam contribuir nos rumos da instituição. Se for um capricho, se atende a algum interesse oculto e for perpetrado este retrocesso, gostaria de expressar a discordância do grupo da cirurgia cardiovascular. É um retrocesso monumental. Não há como concordar. O que já está ruim fica pior.

Muito obrigado pela atenção dispensada e que Deus nos dê força para continuar essa luta em defesa da vida.

Cordialmente,

Dr. JOSÉ WANDERLEY NETO

 

ANEXO II

À Mesa Administrativa da Santa Casa de Misericórdia de Maceió

                          Prezados senhores,

                          Nós, abaixo assinados, médicos do Corpo Clinico desta instituição, alguns com mais de 50 anos de dedicação, estamos nos manifestando para tecer considerações sobre o momento em que vivemos e os rumos da Santa Casa, e chegamos a algumas constatações preocupantes que listamos a seguir:


  1. Distanciamento da Administração e da Direção Médica do seu Corpo Clínico, levando a desmotivação e insegurança;

  2. Desestruturação dos serviços médicos e progressiva terceirização, com eventual prejuízo para a assistência aos enfermos;

  3. Algumas peças publicitárias não condizentes a realidade do hospital;

  4. Esvaziamento do Conselho Médico e da Direção Médica;

  5. Alinhamento da Santa Casa de Maceió com os hospitais privados, criando a falsa impressão de bonança financeira que contrasta com o sucateamento de alguns serviços;

  6. Falta de participação do corpo clínico no planejamento e expansão dos serviços médicos e da própria instituição.



O dever de cidadania nos obriga a externar nossa posição e solicitar providências e mudanças de rumo, sob pena de desfigurar uma instituição secular que sempre se caracterizou pelo pioneirismo em suas ações e prioridade aos mais necessitados.

Solicitamos à Mesa Administrativa da Santa Casa de Maceió providencias no sentido de restabelecer a harmonia entre o Corpo Clinico e a Administração, que podem se iniciar por:


  1. Eleição direta de um Diretor Médico para interlocução com o corpo Clínico, de acordo com a Resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina – 1342/91);

  2. Restabelecimento do Conselho Médico como instância de decisão da atividade médica e regulação dos serviços médicos, subordinado ao Diretor Médico eleito;

  3. Acesso às receitas e despesas da instituição, seus custos reais e dos respectivos serviços, além da resolução dos problemas de repasse dos honorários médicos;

  4. Plano de reestruturação dos serviços médicos, hospitalares e ambulatoriais, a ser legitimado pelo Conselho Médico.



Maceió, 27 de janeiro de 2015

 



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      (Assinam os 110 médicos)

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